Uma infância miserável e marcada pelo trabalho escravo nos canaviais, passando pela mendicância na cidade grande e prostituição como travesti, até chegar à conversão religiosa. A trajetória singular de Clóvis, um negro de 39 anos de idade, é o fio condutor para abordar o universo das igrejas neopentecostais em João Pessoa. Tudo isso é relatado em O Rebeliado, do cineasta e videasta Bertrand Lira. O vídeo, de 70 minutos de duração, foi captado em mini-DV e terá a segunda exibição pública na próxima terça-feira (17), a partir das 19h, na Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes. A obra foi patrocinada pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), através do Fundo Municipal de Cultura (FMC).
Antes mesmo de sair o edital do FMC, publicado em 2006, Bertrand Lira começou a arregaçar as mangas rumo à realização do documentário, que levou três anos e meio para ficar pronto. Procurei expor a história de vida de um ser humano, seus percalços, sofrimentos, discriminações e violência que explicam uma atitude tão radical, observou.
A história emblemática do personagem é utilizada para conduzir a discussão, que trata da proliferação das igrejas neopentecostais em João Pessoa. Uma característica desses templos, ressaltada no vídeo, é a crescente penetração nas camadas economicamente mais pobres da sociedade. Na retórica propagada pelos líderes religiosos está a intolerância às escolhas individuais, no que diz respeito à sexualidade.
Temas O vídeo é dividido em blocos temáticos. Um deles diz respeito à infância de Clóvis, marcada pelo trabalho escravo nos canaviais da vila de Forte Velho, litoral da Paraíba. Os demais blocos fazem referência à mendicância no Rio de Janeiro; descoberta da sexualidade; conflitos com o padrasto; retorno ao estado natal, onde começa a vida como travesti; relação com a família; conflitos; sofrimento com novo estilo de viver; conversão à religião neopentecostal; casamento heterossexual; cotidiano como pastor da igreja, construída contígua à casa onde mora. Nesse último ponto, é enfatizado o trabalho do protagonista na conversão de gays, lésbicas e travestis.
Um ex-travesti e novo convertido, identificado como Adailton Batista, é quem apresenta Clóvis. Ao todo, são quatro personagens que tratam da recusa à homossexualidade, experimentada no passado recente. Outros depoentes abordam o envolvimento com drogas e crimes.
Fomento cultural O Fundo Municipal de Cultura, que patrocinou O Rebeliado, é um elemento de fomento cultural instituído em 3 de dezembro de 2001 por intermédio da Lei nº. 9560. Foi regulamentado pelo Decreto nº. 4469, assinado em 7 de dezembro de 2001. No ano passado, o FMC inscreveu 182 projetos. Desses, 52 foram aprovados, representando a disponibilidade de financiamentos estimados em R$ 700 mil.
Equipe A filmografia de Bertrand Lira inclui vários trabalhos, com participação e premiação em vários festivais nacionais de cinema e vídeo. Entre eles está, por exemplo, a direção, argumento e fotografia de Crias de Piollin (2008, 53 min, mini-DV) e de O Senhor do Engenho (2004, 16 min, DVCam); argumento, roteiro e assistente de direção de Álbum da Memória (2000, 14 min, Betacam); direção e fotografia de Vita Nostra 1993, 10 min, VHS), além de outros audiovisuais.
Fazem parte ainda da equipe técnica de O Rebeliado (direção geral, direção de fotografia, argumento, roteiro, edição de Bertrand Lira) os seguintes profissionais: Heleno Bernardo (assistente de direção, produção executiva, som direto); Yorster Queiroga (edição). A trilha sonora adaptada é de Henrique Peixe, Daniel Mesquita e Daniel Pina.