Os tapumes de mais de dois metros de altura resguardam a transformação por que passa a Praça Vidal de Negreiros, popularmente chamada de Ponto de Cem Réis, no Centro da Capital. Apenas os ruídos de máquinas e homens trabalhando no canteiro de obras – que mede 5.214 metros quadrados – sinalizam a intervenção proposta pelo Governo Municipal orçada em pouco mais de R$ 1,4 milhão. A idéia é devolver à população – em meados de março de 2009 – um espaço de circulação oxigenado, onde as centenas de pessoas que por ali transitam diariamente tenham a possibilidade de desfrutar, sem interferências, de um cenário arquitetônico que abriga parte da história e costumes da cidade quatrocentona.
O cuidado do gestor em revitalizar essa área que integra o Centro Histórico da Capital não é mera casualidade. Fragmentos de um roteiro da evolução urbana de João Pessoa estão materializados na arquitetura que circunda o local, estabelecendo um elo do passado com o presente e revelando recortes de épocas símbolos do progresso e desenvolvimento. Por outro lado, uma memória mais abstrata, rica em costumes e comportamentos permeia esse ambiente que é considerado uma das partes mais pulsantes da cidade. Uma espécie de termômetro acionado pelo burburinho dos acontecimentos.
Memória essa que pode ser destacada pela denominação de Ponto de Cem Réis. O batismo popular fez frente ao nome inaugural da praça no ano de 1924, homenageando o heroísmo de Vidal de Negreiros na expulsão dos holandeses da Paraíba, em 1636.Revelam os livros de história que o fato tem explicação no bonde elétrico que tinha o local como ponto de partida das linhas Trincheiras, Varadouro e Tambiá, onde o cobrador anunciava a chegada da viatura ao ponto onde era cobrada a tarifa de cem réis.
Pés no presente e olhar no passado Com as obras concluídas, freqüentadores habituais do Ponto de Cem Réis e transeuntes poderão ter os pés no presente – desfrutando de um espaço aberto, de piso uniforme e sem barreiras – e um olhar apurado para contemplar o passado impresso na arquitetura do entorno. A população vai ganhar com a democratização do espaço onde normas de acessibilidade foram aplicadas de acordo com o Desenho Universal, enfatiza Nilton Pereira, técnico da Secretaria de Planejamento (Seplan) responsável pelo sistema viário e de circulação do projeto.
A amplitude do lugar só será quebrada pelo monumento a Vidal de Negreiros. O espaço vazado do Viaduto Damásio Franca ícone da cidade grande construído em 1970 não mais existirá. Um giro de 360 graus vai permitir visualizar pistas da evolução urbana deixadas pelo ecletismo do casario da Rua Duque de Caxias e da fachada do Parahyba Palace Hotel, além dos traços modernos do Edifício Régis, um dos pioneiros da verticalização na década de 1960.
Para o arquiteto e urbanista Amaro Muniz, integrante do projeto, o reordenamento desse espaço, baseado em mobilidade, segurança e conforto ambiental, vai incorporar melhorias significativas para a cidade e seus habitantes. Somado a esse resultado, a expectativa é de que essa intervenção tenha desdobramentos na revitalização do Centro Histórico como um todo e na auto-estima da população em relação à cidade em que mora.